Sunday, November 26, 2006



Coffee bar






Pois é. Eis os sonhos inquietos transformados em pequenas estórias delirantes, dessas, que nos surpreendem em alguma manhã de Sábado.(?)
O olhar capta o homenzinho verde do sinal, o beijo insólito da passante ou o brilho velado da colher embebida de café com leite. Um sopro, um gole...e a vida vai sendo degustada em pequenos intervalos. Enquanto o cheiro inebria, a velha bic, comida pelos dentes nicotinados; rabisca indecifráveis signos que nunca serão lidos por alguém com mais de noventa anos. (?)
E, assim, passam-se as horas: entre o tilintar das xícaras e o efervescente vapor da imaginação. Horas intermináveis de alguém, que lia, pequenos tratados de metafísica e, depois, assistia a sessões prazerosas de filmes da Hammer.
E o quanto mais pode ser lido? ou não lido? ou ignorado? Poesia fast food ou curtas frases hard boiled...tanto faz. O que interessa são seus olhos curiosos, seu sol de farmácia e sua aguçada leitura das bulas de remédio.(?)
Ok?
Tudo pronto?
Wakuz Dro Brugka Spazibo!



SérgioP.


A MUSA PÁLIDA





" O rouxinol que do alto de um galho olha-se no ribeiro,
acredita haver caído nele. Ele está no alto de
um carvalho e tem medo de afogar-se."
Cyrano de Bergerac

O olhar apreensivo de Alencar, para o relógio, mostrava o desejo de ir logo para casa. Sua mesa já estava pronta, todos os relatórios devidamente arquivados, restando só os ponteiros marcarem dezoito horas.
Olhos fixos e apreensivos. No momento exato, saiu rápido e impaciente. Despediu-se de forma quase mecânica de alguns que saíam despreocupados e em poucos minutos já estava na rua. Respirou freneticamente. Como o dia estava insuportavelmente quente, já foi abrindo os botões superiores da camisa.
Morava a uns quinze minutos do trabalho. Poderia sempre ir andando, coisa que neste dia não estava fácil. Muitas pessoas transitavam nas calçadas, pois era o início da semana de Natal. As inúmeras lojas apresentavam suas promoções e o tumulto era inevitável.
Centenas de luzes coloridas piscavam pelas calçadas e músicas natalinas misturavam-se com os gritos dos vendedores; causando-lhe uma progressiva irritação. Depois de inúmeras bordoadas, conseguiu atravessar para uma rua não tão agitada, que lhe proporcionou um certo alívio. Ao caminhar pensava quase em voz alta: "chega de cartão de ponto, computadores, disquetes, esferográficas, papéis, escritórios, repartições, arquivos, chefes, secretárias, grampeadores, clipes, horários, chega da mesma merda todos os dias, viva o ócio, o antiprogresso, a improdutividade! Um dia ainda deixo de vir a este maldito emprego e não vou fazer mais nada, só tomar vinho barato e assistir velhos filmes com o John Wayne.!".
Aproximando-se do velho prédio onde morava, deparou-se com uma aglomeração de pessoas na calçada. Com um olhar letárgico tentava entender o que se passava em sua volta, quando foi surpreendido pela voz estridente de Rita, sua vizinha do oitavo andar. Além de um rosto enorme, Rita usava uns óculos com lentes grossas e gordurosas que pareciam estar afundados nas bochechas vermelhas e suadas. Tinha um sinal no canto da boca que emendava com um repugnante bigode ralo. O cabelo, oleoso, estava sempre preso de forma impecável. Ela tentava explicar o que estava acontecendo, mas Alencar não conseguia entender, pois, a voz de Rita confundia-se com a sirene incansável de uma ambulância, com pessoas que gritavam, com outras que falavam aleatoriamente e, estranhamente, com o cantarolar de uma velha pedinte, em farrapos, que puxava insistentemente sua camisa. Diante de tal cena, ele mal conseguia conter uma vertigem.
De repente, no meio deste pandemônio, Alencar começou a se sentir estranho. Todo barulho começou a ficar distante. Algumas pessoas fitavam-no sem entender o que estava acontecendo. Sentiu as mãos frias, as luzes em volta incomodavam-no, seu cérebro girava, as imagens se misturavam como num caleidoscópio...Num átimo, notou que Rita apontava para seu apartamento. A janela estava aberta e, boa parte, da velha cortina, simulava uma bandeira ao vento. Aquela visão o despertou. Rapidamente e inexplicavelmente recuperou a lucidez. Neste momento, as pessoas, forçadamente, começaram a sair da calçada e, surpreendentemente, surgia a razão de todo o tumulto: um corpo estendido na calçada, banhado de sangue. Alencar aproximou-se repetindo que era morador do prédio e pôde ver o que lhe parecia o corpo de uma mulher completamente nua, e o que lhe chamou mais a atenção é que ela calçava longas botas amarelas. Sem esperar, foi puxado bruscamente por um policial. Saiu desnorteado sem entender o que estava acontecendo. Sua cabeça voltou a girar...
* * *
Um barulho contínuo, vindo do apartamento vizinho, o despertou. Ao tentar levantar, uma dor aguda, na cabeça, o fez deitar novamente. Procurava entender o que teria acontecido, mas tudo lhe parecia confuso. Olhou tudo em sua volta e viu que estava mesmo em seu pequeno apartamento. A televisão fora do ar e um pouco da luz da noite, que entrava por um recanto da janela, evitava a total escuridão. A janela, as cortinas, tudo estava como sempre.
Agora junto ao barulho – que parecia o ranger de uma velha cama –, ouvia-se também um gemido contínuo de mulher.

pausa para o pingado





Acaso

Veja! Não há nada!
(disse-me ela)
Apenas a inquieta liberdade,
penugem em puberdade, no vento,
contida por grandes portões de aço.

Veja! Não há nada!
(disse-me ela)
Apenas um seixo.
Na palma da mão, outra coisa,
fria, a espera do toque.

Chorou...sentiu-se abandonada.
Enfim, abraçou o nada.
(inevitável possibilidade do salto)


Sir Carol Reed






Britânico até a alma, Mr. Reed adaptou para o cinema, muito da conhecida literatura inglesa: Dickens ou Cronin podem ser bons exemplos. Mas, quero chegar, mesmo, é a sua direção magistral de: "The Third Man" com roteiro do, também genial, Graham Greene. O filme se passa em uma Viena sombria e úmida. O noir está de volta às suas origens expressionistas. Tudo é extremamente bem cuidado. Os atores, as locações e a impecável fotografia...(chega a dar calafrios). Mas, entre muitos fatos curiosos, um ainda persiste: o de que o filme foi dirigido por Orson Welles. (Em edições de vhs e dvd's, o rosto de Welles toma toda a capa) Welles está no filme? Sim, ele está. Sua aparição é um dos pontos altos? Sim, é. Alguns diálogos foram escritos por ele? Sim, foram. Mas, justiça seja feita: a direção não é dele. Carol Reed é o grande "pintor" dessa sinfonia em preto e branco. Diretor exigente e meticuloso, conseguiu, em 1949, realizar um dos maiores e mais respeitados filmes do Século XX.
Thanks! Sir Carol Reed.

Elenco: Joseph Cotten(Holly Martins), Orson Welles(Harry Lime), Alida Valli(Anna Schmidt), Trevor Howard(major Calloway)
Obs: ao assisti-lo, tome um bom copo de café(os diálogos são imprescindíveis), apague todas as luzes e deguste bem esse clássico da sétima arte. Sim, e muito cuidado ao atravessar a rua em uma noite fria.

Monday, November 20, 2006



Quando Nietzsche gozou...





Dizem que o jovem Frederico foi visto, em um aeroporto brazuca, retornando para sua terra natal. Os dias que passou nos trópicos, dizem os pesquisadores, foram de enorme contribuição para sua desejada futura obra. Então, vamos aos fatos: Passando pelo Ceará, três coisas o influenciaram grandemente:(1)Ao ver uma foto do Belchior pensou que, poderia também, liberar, seu ainda tímido bigode. (2) diante de uma terra tão prodigiosa em comediantes, resolveu escrever uma obra tratando do Nascimento da comédia. (3) Ainda, dentro do conceito estético tropical, decidiu escrever um tratado sobre música, tendo como figura central o cantor: Fagner e o recomeço da tragédia..."quem dera ser um peixe..."
Dando um pulo nas Minas Gerais, ficou encantado por ser tão citado em grutas locais: "olha lá o estalagnietzsche!" Ao se aproximar do guia, apresentou-se: "olá, sou o Nietzsche!" o garoto muito feliz, foi logo falando: "Nossa! Que prazer! Pode me dar um autógrafo? Adoro aquela sua música menina veneno!"
Já em Pernambuco, visitando um "puteiro" na zona da mata, enfim, gozou. Dizem que a "rapariga", de nome Aurora, o deixou realmente apaixonado. Tanto, que prometeu escrever alguma coisa em sua homenagem. Os encontros, também, lhe deram inspiração para um tratado: Vontade de Potência. Dias depois, acreditando que ela o aguardava, a encontrou nos braços de um tenente local. Chorou muito e começou as anotações para um novo tratado chamado: A gaia ciência.
Ao passear em uma feira de vinis, perguntou, a um dos vendedores, quem era o grande ídolo da música local. O vendedor, muito gentil, mostrou-lhe um disco do Reginaldo Rossi e falou enfático é Ecce Home! Observando bem aquela fotografia, Frederico começou as anotações para a obra: Crepúsculo dos Ídolos.
Já no aeroporto, no Rio de Janeiro, viu por uma das tvs, uma imagem níetzschida: uma apresentação do Padre Marcelo Rossi. Novamente, bateu-lhe a inspiração para um novo trabalho: O anticristo. Já perto do embarque, agradeceu a todos pela hospitalidade e falou que, realmente, poderia haver um eterno retorno do mesmo...ou não!


A musa pálida



(parte II)



Com certo esforço conseguiu sentar na cama. Notou que ainda estava com a mesma roupa que saiu para o trabalho. Procurava entender o que teria acontecido. As pessoas, Rita, a pedinte, a mulher estendida na calçada, as botas...Neste momento alguém bateu em sua porta.
"Quem poderá ser?" pensou alto.
Levantou-se, e mesmo titubeante chegou à porta. Ao observar pelo olho mágico, viu o enorme e vermelho rosto de Rita. Ao abrir a porta, ela entrou impaciente como sempre.
- O que há com este maldito prédio?! Deveria chamar-se de "Manicômio Avenida", ninguém dorme, ninguém tem o mínimo de paz!
- Do que você está falando Rita?
- Deste Julião seu vizinho e infelizmente meu também. Todas as noites é a mesma coisa. Sempre trazendo estas prostitutazinhas endiabradas. Eles não param, eles não param... Esses gemidos infindáveis. Eu não sei como você agüenta Alencar! E ainda por cima este infeliz é o Papai Noel. Você já imaginou? Coitadas das criancinhas, meu Deus...
- Oh Rita, não seja assim tão má. É o único mês do ano em que o Julião pode ganhar um dinheiro a mais. E você sabe, daqui a pouco volta-se o silêncio. Afinal, não há saco que agüente! Nem o do Papai Noel!
- Não me venha com suas piadinhas Alencar!
- O que você quer que eu faça Rita? Porque você veio até aqui e não foi resolver diretamente o problema?
- Exatamente por isso: como você é amigo do nosso vizinho aí, vim lhe pedir que fale com ele, eu não consigo dormir com tantos gemidos.
- Está bem Rita, vou tentar falar com o Julião. Hoje ele está mesmo exagerando. Até a mim este puto acordou. Por falar nisso, queria lhe perguntar, você sabe o que aconteceu comigo? Lembro que vinha do escritório e vi muitas pessoas, inclusive você, vi também uma mulher com longas botas amarelas, estava morta e parecia com alguém...não sei...
- Você não consegue lembrar nada, nadinha? Isto eu estava prevendo, por isso vim aqui, também, para saber como você estava. Bem, dois homens trouxeram você. Disseram que você havia desmaiado no escritório. Disseram, até, que você poderia ir mais tarde na sexta-feira. Achavam que era estafa, acho que é isto, é isto: excesso de trabalho.
- Mas, quem me trouxe ao apartamento e onde conseguiram as chaves?
- Pô Alencar! Os nomes eu não sei, tudo foi muito rápido. (Rita abre a geladeira e, naturalmente, tira uma maçã) No momento em que eles chegaram com você, eu estava na calçada e como sua boa amiga e vizinha ajudei-os a trazê-lo. Colocamos você na cama, você já estava melhor, só um pouco cansado. Falou algumas coisas estranhas sobre uma mulher morta, com botas... Também pediu para que ligasse a tv. Finalmente deixei você dormindo. Mas, eu não perguntei os nomes, acho que um deles se chamava...
- E as chaves, como conseguiram? Nas sextas-feiras eu deixo as chaves sempre com ...
- Você está mal mesmo. Ontem era quinta feira, e as chaves estavam no seu bolso. Entramos, colocamos você na cama e pronto. Aí está você.
- Ontem era Quinta!?...Que horas são? Meu Deus, acho que estou mesmo ruim.
- Acho que o melhor a se fazer agora é o senhor ir dormir. Não há mal que uma noite de sono não resolva. E afinal já são duas horas meu caro! Foi só um horrível pesadelo, nada mais. E o nosso Julião, o Papai Noel do sexo, parece que dorme profundamente! Bons sonhos Alencar. Vou aproveitar o bendito silêncio para dormir também.
Rita, rapidamente, atravessou o corredor e entrou em seu apartamento, não escutando as últimas palavras de Alencar.
- Boa noite, quero dizer, boa madrugada Rita. E obrigado por tudo. Amanhã eu falo com o Julião. Não se preocupe. Acho que agora voltarei a dormir. Ainda me sinto um pouco confuso.
Naquela madrugada visitou-lhe a agonia de pesadelos febris. Viu a velha pedinte jogando-se da janela do seu apartamento, viu também Julião estendido na calçada, vestido de Papai Noel, envolto por um sangue escuro. Viu também Rita e por fim viu a si mesmo; tudo num carrossel de imagens ininterruptas. Acordou com os próprios gritos e viu que a luz do sol já invadia todo apartamento.
- Meio dia! Preciso correr. Tenho que estar no escritório em uma hora. Preciso de um banho, um banho frio, depois um belo almoço e aí sim, estarei pronto para encarar aquele maldito emprego.
Neste momento, Alencar escutou batidas na porta. Eram batidas fracas, como se, quem chamasse, já pensasse em desistir. Antes mesmo de aproximar-se do olho mágico, uma voz sussurrante respondeu:
- Sou eu, Virginia!
Alencar abriu a porta e, com um aspecto de espanto, perguntou:
- O que você está fazendo aqui?

Pausa para o pingado:





ins(piração)

Sem palavras... vazio do vazio.
O ar impulsiona os nomes (comes)
Gritos em vidros embaçados.
Unhas trituradas, dentes afiados.
Num átimo, o olhar inquieto
observa o branco papel
e imagina..
um travesseiro.



(2000)


Wilson Grey
(você, realmente, já viu ele por aí)

Dizem que os fantasmas estão soltos. Que vagam, por aí, a procura de um prato de cremogema. E, os fantasmas,- como quase tudo nessa vida - ou são bons ou maus. Os maus são aqueles que pagaríamos pra não ver, mas, quando menos esperamos, lá estão eles. Você liga a tv e....huuhuhuhuhuhuhuhuh eles aparecem: velhos políticos, atores canastrões, dançarinas botocadas, jornalistas fascistas, duplas sertanejas, reprise de novelas, apresentadoras de programas infantis, vendedores de inutilidades ...e a lista não tem fim.
Os bons fantasmas, também, aparecem de repente. Mas, diferente dos outros, estes, são, sempre, agradáveis. Um desses "fantasmas camaradas" é o ator Wilson Grey. Entre dez filmes brazucas, em oito, você o encontrará. No meio dos coadjuvantes...huhuhuhuhuhuhuhuh lá está ele! Não há como passar despercebido. Magro, realmente muito magro, cabelos cheios e impecavelmente penteados, rosto vincado e levemente aterrorizante,(se fosse Inglês, seria um tipo Peter Cushing),bigode clássico e irrepreensível, roupas legais(hoje em dia, retrô bacana)e o inseparável cigarro. Muitas vezes, uma cigarrilha com piteira, fumada com grande estilo.
Eis o ator rock’n roll por excelência! É só você bater os olhos que vai logo dizendo: "acho que vi esse cara em algum lugar!" Sim, é verdade. Como um bom fantasma, ele, realmente, apareceu pra você em alguma madrugada. Enquanto a insônia lhe assolava e você devorava as sobras do almoço, na telinha, ele, olhando fixamente, dizia: "e aí porra! Não me reconhece não é?"

A musa pálida
(final)

- Não me convida pra entrar Alencar? Já bato nesta porta por mais de uma hora! O que há com você? Está se sentindo bem?
- Você sabe que não há mais nada entre nós...
Virginia entra rapidamente, como se fugisse de alguma coisa.
- Não se preocupe, prometo-lhe que será a última vez que você me verá. Mas hoje é necessário. Eu preciso ficar aqui. Só esta noite. Sei que você fará isto por mim, pelos velhos tempos.
Ela abriu um dos lados da janela, acendeu um cigarro e sentou-se na desarrumada cama de Alencar. Vestia uma pequena saia preta, uma justíssima camiseta branca com o nome Sex Pistols, longas botas pretas, óculos escuros num rosto pálido e misterioso, cabelos curtos e charmosamente desarrumados. Trazia consigo uma dessas sacolas de lojas chiques com letras douradas.
- Não acredito que você trouxe isto para o meu apartamento, você quer acabar com a minha vida Virgínia?!
- Não é o que você está pensando Alencar. Isto é algo que comprei para nós. Quando você chegar, a noite, você vai adorar! Eu prometo.
- Estou muito atrasado Virgínia, não posso ficar aqui escutando suas aventuras. Espero que você não me traga problemas. Já bastam os meus. Tenho que correr, o trabalho me espera. Quando eu chegar, espero que tudo esteja normal. Vê se não apronta tá? Tenho tido pesadelos horríveis! Não sei o que está acontecendo comigo.
- Poderíamos estar ricos Alencar, você já pensou nisso? Nada de trabalho, bons sonhos e muito mar.
- Poderíamos estar presos Virgínia, isto sim, presos e sem nenhum mar!
Alencar vestiu-se apressado, passou água no cabelo e, ao sair, observou Virgínia que, fumando, olhava despreocupada pela janela. Mesmo contrariado, ele sentiu uma estranha felicidade.
- À noite conversamos! Cuide-se. E por favor, não saia do apartamento. Se alguém chamar, mesmo que seja o Julião, não atenda! Você sabe sobre as chaves...não?
Virgínia olhou para ele com um tímido sorriso e, sem falar nada, gastou um bom tempo tragando o cigarro.
Alencar caminhou apressado. Ao atravessar a rua, deu uma última olhada para a janela. Virgínia continuava lá, inerte a fumar. Muitos pensamentos rondavam sua cabeça:
- Uma sexta-feira insuportavelmente quente e uma visita inesperada. O que mais pode acontecer hoje?
Enquanto Alencar caminhava, quase mecanicamente para o escritório, nas calçadas, os vendedores já disputavam ,aos gritos, as vendas de Natal.

Sunday, November 19, 2006



BOB

Tudo começou com uma certa resistência de jogá-la fora. Não sei como explicar, mas eu gostava de sua presença. Há uma semana permanecia num recanto da sala. Sempre me programava para retirá-la na manhã seguinte, mas, na hora exata, achava que me serviria para alguma coisa. Parecia-me, ainda, resistente. Seria ideal para uma boa parte dos meus livros.
Encontrei-a no corredor. Talvez, alguém remexendo em velharias, tenha encontrado e, logo, a dispensou. Há mais de vinte anos não via uma dessas. De puro papelão...vejam só! Quem imaginaria que não usaríamos mais caixas? Só um velho, como eu, ainda se interessaria por esse tipo de coisa: caixas de papelão. Sem falar nos livros, cada vez mais raros. Ainda sonho com alguns do Flaubert. A linda moça ruiva das raridades...
-Sr!
-Boa noite!
-Livros? Ou hoje resolveu tentar outra coisa? Que tal velhas telas de cristal líquido? dvd’s? microondas? Temos vários exemplares destas raridades e alguns ainda em funcionamento.
-Não.obrigado. Não tenho jeito para colecionador. Queria ainda insistir nos livros. Flaubert?
-Não, Senhor, livros estão cada vez mais raros. O Sr. sabe...depois das novas leis, foram quase totalmente destruídos. Porque não tenta uma regressão virtual. Pode lê-los em bibliotecas do Século XIX.
-Não. Meus dígitos mensais não podem pagar. Mas, mesmo assim, obrigado...
Meus raros exemplares ficarão bem nesta caixa. O magro calvo da fiscalização...
-O que há na caixa velho?
-Não é nada. Só algumas capas imunizadoras e alguns cartuchos de oxigênio.
Se acontecer, preciso sentir dores no peito. Ninguém suporta ficar perto de um velho doente. Não podem saber de Homero, nem de Cervantes, nem de Borges...Ahhh.. Biblioteca de Babel.. "Deus é uma letra em algum destes milhões de livros". O que sabem eles disto? Nem sol, nem Bach, nem livros...o que importa? Dirão alguns: Hoje temos as múltiplas pílulas...diversão, sexo, viagens... "usem mais pílulas! O ar está contaminado! Fiquem em casa! Estoquem pílulas!" E o negro vendedor de pílulas...
-O que vai levar hoje Sr.? não gostaria de experimentar as Elvispills? Poderá até conversar com ele.
-Não. Obrigado. Só alguns cartuchos de oxigênio e algumas pillsfood. Pode misturar verdes e azuis.
-Temos umas Sleepers que mantém o efeito por até seis meses...sem a necessidade de foods! Não quer experimentar?
-Não obrigado. (chamo-lhe discretamente) você não teria erva?
-Não tive mais acesso. O controle está muito rigoroso. Eles eliminam qualquer suspeito. Leve alguns ologramas do Bob, temos vários, com algumas pílulas...humm... é diversão garantida!